Uma vida em defesa de um sonho

Maria Augusta Nóbrega viveu para o folclore. Os costumes e tradições da sua terra foram o seu grande amor. Durante mais de trinta anos foi aprendiz e pedagoga em defesa de um sonho – recuperar o património etnográfico madeirense. Com o folclore ou o projecto da aldeia etnográfica deixou a sua marca na cultura popular madeirense. Meses após o seu falecimento, tentamos perceber porque Maria Augusta Nóbrega conquistou um lugar de honra no estudo etnográfico da região. Refira-se que, este mês, a edilidade de Santa Cruz vai prestar tributo a personalidades do concelho, entre as quais Maria Augusta Nóbrega, com a colocação de uma placa no cemitério, onde está sepultada.

Texto: Andreia Nóbrega
(estudante de jornalismo)

A cultura popular madeirense sempre fascinou Maria Augusta Nóbrega desde os tempos de menina, mas foi após ter acabado o curso do ensino primário, em 1955, que o sonho começou a tomar forma. A professora, como todos lhe chamavam, desejava que as suas crianças crescessem na riqueza do folclore e do artesanato da sua terra. Receava que as tradições se perdessem na poeira dos tempos, que ficassem esquecidas na memória dos antigos, impedindo que as gerações mais novas conhecessem as suas raízes.
Ficou conhecida sobretudo pelo seu empenho na divulgação do folclore na Camacha, freguesia onde nasceu, em 1929. Foi fundadora do primeiro grupo infantil da região, em 1969, e mais tarde, em 1978, do grupo juvenil da Camacha, de modo a permitir às crianças continuar a crescer no seio do folclore.
Apercebeu-se que ao formar as crianças e jovens para a importância do folclore estaria a incutir-lhes um maior interesse pela cultura, evitando que as tradições se perdessem. “Agora temos conservatório e outras instituições que ensinam os miúdos a arte da música e da dança, naquela altura não havia nada”, diz uma das suas quatro filhas.
O convívio era fundamental. Numa altura em que a falta de informação era evidente, em que não havia televisão, a confraternização gerava uma abertura diferente, uma aprendizagem. “Foi a professora que nos ensinou a tocar os instrumentos. Com um papel com as pautas e uma cassete do grupo folclórico, nós íamos apanhando as músicas”, relembra Firmino Martins, o elemento mais antigo do grupo.
Firmino Martins soma hoje vinte e cinco anos de folclore. Entrou para o grupo infantil com nove e orgulha-se de ter crescido sempre no ‘bailinho’. Para ele, tal como para inúmeras outras crianças, Maria Augusta Nóbrega “foi uma segunda mãe”.
“Nas actuações do grupo infantil no Natal, a professora nunca quis que nos dessem dinheiro. Ela pedia sempre para nos oferecerem um brinquedo” diz Firmino Martins, recordando o seu primeiro carro de plástico.
Além de ensinar as tradições, Maria Augusta teve um papel importante na educação destas crianças. “Na minha primeira saída com o grupo, em 1988, a professora sentou-nos à mesa, com um garfo, uma faca e uma colher, para nos ensinar como nos devíamos comportar. Nós não sabíamos trabalhar com os talheres, foi ela quem nos ensinou”, diz Firmino Martins.
Todos a consideram corajosa, empreendedora e bastante moderna ao romper com os tabus de uma época em que o lugar da mulher se reduzia ao cuidar da casa e dos filhos. “Muitas vezes a minha mãe saía de manhã e só voltava à noite, mas nunca descurou o papel de mãe”, diz uma das suas filhas. Com o apoio e compreensão da família, libertou-se das lides domésticas e pôde se dedicar àquilo que a fazia feliz.

 As tradições da quadra natalícia,
um projecto singular

Há quem diga que a criatividade de Maria Augusta Nóbrega era ilimitada. Ela aproveitava todos os projectos em que se envolvia para mostrar os costumes e tradições das pessoas da sua terra, recuperando a cultura madeirense de uma forma moderna, que cativasse as gerações mais novas.
A professora imaginou uma aldeia etnográfica que ocupa, todos os anos, a avenida Arriaga pela altura do Natal. Um gigantesco presépio e algumas casinhas mostram as tradições, o artesanato e a gastronomia regional.
Os artesãos fiam o linho, vendem botas e brinquinhos, fazem vimes, cardam a lã ou tricotam os tradicionais barretes de orelhas, um restaurante improvisado serve a sopa de trigo. Este prato típico da região tinha sido retirado da mesa dos madeirenses. Ao ser servida na feira de Natal, a sopa de trigo foi adicionada ao menu dos restaurantes e a tradição foi recuperada. Assim, a gastronomia madeirense enriqueceu com as pesquisas de Maria Augusta.
O presépio é concebido de tal forma que, escondido debaixo dele, é construída uma cozinha que prepara o petisco para as cerca de vinte pessoas que colaboram na feira. “A minha mãe era realmente uma pessoa singular”, diz uma das suas filhas com uma lágrima a brotar do canto do olho. João Carlos Abreu, ex-secretário regional do turismo e cultura relembra: “Só ela se lembraria de trazer carneiros ao vivo, para o centro do Funchal”.
Maria Augusta vivia toda esta azáfama de uma forma muito especial. Ela entregava-se a todos os projectos em que se envolvia. “Ela ficava ‘esfarrapada’ na quadra natalícia, estafada com o trabalho na feira, mas fazia-o com um grande amor”, acrescenta João Carlos Abreu.

Um importante papel
no estudo etnográfico da região

Desde a década de sessenta, Maria Augusta foi absorvendo os vestígios de hábitos e costumes da sua terra que teimavam em desaparecer, “Imitando a areia do deserto que recolhe todas as gotas da chuva sem perder nenhuma”, como diz na introdução de um dos seus livros.
Recorrendo à sabedoria dos testemunhos ainda vivos ou à compilação e catalogação de um número infindável de adereços, instrumentos, acessórios, conseguiu recuperar os traços culturais dos seus conterrâneos. A professora debruçou-se na análise da indumentária do vilão e da viloa, na recolha da poesia popular, pesquisas que reuniu em vários livros. Os licores caseiros fascinaram-na, mas também se rendeu à magia do vinho.
O espólio da etnóloga encontra-se exposto na casa etnográfica da Camacha desde a sua abertura, em 2001. São panelas de ferro, leiteiras em latão, foices, mós para moer o trigo, lampiões a petróleo… artigos que já desapareceram do quotidiano dos madeirenses, objectos aparentemente sem importância que estavam jogados para o canto, mas que definem a identidade deste povo.
Este espaço é hoje insuficiente para acolher todos os objectos que recolheu. Na sua casa abundam ainda muitos dos instrumentos dos seus bisavôs, enclausurados em baús, estantes e gavetas.
Foi-lhe prometida uma casa museu para albergar todo o seu legado e mantê-lo disponível para as gerações futuras, como sempre sonhou. Está prevista a sua localização no antigo posto da PSP da Camacha.

A recuperação das festas
de cariz popular

Como guardiã dos costumes e tradições, Maria Augusta zelou pela cultura popular madeirense, a sua grande paixão. “O seu maior desejo era perceber e ensinar aos outros como é que as pessoas viviam naquele tempo”, lembra uma das suas filhas. O seu empenho não se ficou apenas pelo papel. A etnóloga esforçou-se por reintroduzir nas festas populares da sua freguesia as tradições que haviam sido esquecidas.
Quem é que consegue imaginar, por exemplo, a festa do Espírito Santo sem a tradicional eleição do imperador na segunda-feira da Camacha? Ou a festa da flor sem os tapetes florais que cobrem as ruas do Funchal?
Durante mais de quinze anos, teve a seu cargo a organização da festa de Santo Amaro em Santa Cruz. O programa contempla o tradicional arraial madeirense, uma feira de artesanato e actuações de diversos grupos folclóricos, mas a tradição manda andar de casa em casa a varrer os armários, para saborear os doces que ficaram do Natal.
Acompanhada pela associação de romarias e tradições da Camacha ou pelo grupo infantil e juvenil da Camacha, a professora levou o folclore, a gastronomia e o artesanato madeirense aos quatro cantos do mundo. “Todos os anos, em Julho, o grupo de romarias e tradições da Camacha organiza um arraial madeirense em Fernão Ferro. Fazemos bolo do caco e espetada, porque o frangolho e a sopa de trigo não cativaram aquela gente”, conta Firmino Martins.

Não se sabe ao certo qual a dimensão da influência das pesquisas de Maria Augusta na cultura popular madeirense. A sua sabedoria viajou além fronteiras. O seu profundo conhecimento do folclore era requisitado por emigrantes madeirenses radicados na Venezuela. Por mais de uma vez, orientou palestras, congressos e acções de formação sobre os trajes e a dinâmica dos grupos.
A professora Maria Augusta reescreveu parte da história da Madeira, uma história de tradições que este povo vai costurando ao longo do tempo. “Ela deixa um vazio na etnografia e no folclore madeirense que será difícil de preencher”, remata João Carlos Abreu.
Com muito empenho conseguiu levar a água ao seu moinho e transmitir às crianças o bichinho pelo folclore, artesanato e gastronomia madeirense. Por isso, enquanto houver folclore e festas populares, a professora Maria Augusta será recordada por todos aqueles que, como ela, não querem deixar a tradição morrer.

Fonte:

Jornal da Madeira/Revista Olhar/2007-06-09

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